Uma verdadeira balbúrdia cerebral!

quinta-feira, 8 de março de 2018

Quando o desejo consegue ser maior do que o medo!


Sou mulher!


Sou mulher! Já posso votar (embora há 86 anos não fosse considerada cidadã é só tenha começado a ter direitos há 56 anos NOS PAÍSES DESENVOLVIDOS... porque na outra metade do mundo continuo a ser lixo).
Sou mulher! Tenho capacidades de liderança e desenvoltura superiores às de muitos homens e já consigo cargos de renome nas empresas (embora ganhe menos e a grande maioria dos postos altos de trabalho não me sejam destinados…).
Sou mulher! Posso ter filhos e até tenho licença de maternidade mas se usufruir desta na totalidade sofro represálias e posso, inclusive, ser despromovida e/ou despedida nas entrelinhas dúbias da lei.
Sou mulher! Posso usar a roupa que eu quiser mas se me assediarem ou violarem a culpa é minha porque mostrei as pernas ou um decote acentuado e então mais vale tapar-me da cabeça aos pés ou calar-me do que ser enxovalhada em praça pública depois de destruída intimamente...
Sou mulher! Trato do meu marido... ele bateu-me porque estava stressado mas a culpa não foi dele... eu não devia ter falado naquele momento.
Sou mulher! Sou uma boa mãe... tirei da minha boca para dar ao meu filho, eduquei-o quase sozinha, paguei-lhe os estudos com trabalhos extras e ainda o ajudei a comprar casa... mas o meu filho tem a sua vida, mulher e outra família... raramente o vejo, às vezes nem nas festividades pois vão para a terra dela onde o salão de jantar é maior e estão todos mais à vontade.

Sou mulher! Uma boa avó! Criei os netos com amor a dobrar e fiz deles as crianças mais amadas do universo... já não precisam de mim e já não os vejo. Mas é natural, os pais agora já os podem ter em casa sozinhos, já não sou necessária...
Sou mulher! Mas já não sou útil... envelheci. Ninguém tem tempo para mim! Todos têm a vida ocupada, os seus trabalhos, os seus amigos... ouvi dizer que me vão colocar num lar. Parece-me bem, dizem que vou estar sempre acompanhada e nunca mais me sentirei sozinha nem terei de fazer nada... talvez seja agora que vá descansar um pouco e passear.
Fui mulher... criei filhos e netos, abdiquei dos amigos, trabalhei a dobrar para ter dinheiro para os educar e garantir todas as suas necessidades e até caprichos e ninguém tem tempo, espaço nem dinheiro para o fazer por mim...  já não sou nada... apenas um saco de carne e ossos  esquecida numa cadeira qualquer à espera que a morte se compadeça de mim e me leve.

(Dedicado a todas as mulheres cujo desejo consegue ser maior do que o medo!

Ana Tapadinhas, ‘’Devaneios de uma Divorciada’’)


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