Devaneios de Uma Divorciada

Uma verdadeira balbúrdia cerebral!

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Quem dá aulas em casa…

(Ou outro qualquer trabalho remunerado)

Quem tem uma profissão que exige que se trabalhe em casa é vista de muitas maneiras menos da correta (salvo pelos que têm profissões como a sua).
Quem dá aulas em casa, levanta-se um pouco mais tarde do que teria que fazer se trabalhasse fora mas… começa logo a trabalhar. Não há cá transportes para passar pelas brasas, nem café pelo caminho, nem converseta com colegas no local de trabalho (quando muito dá os bons dias a alguém no FB e depois desativa a conversa porque tem de começar a trabalhar).

Quem dá aulas em casa, às vezes, ainda tem de ir levar os miúdos à escola (ou ensiná-los desde cedo a irem sozinhos caso não possam sequer conciliar o trabalho com os maravilhosos horários escolares) e num sprint qualquer passar pelo supermercado ou fazer uma urgência em casa e já está a pensar «porra já estou atrasada, já não consigo acabar aquilo de manhã»… e até se esquece de tomar o pequeno almoço e muitas vezes só se lembra do almoço à hora do lanche…

Quem dá aulas em duas casas, alia a tudo isto andar sempre de um lado para o outro a ''fazer piscinas'' e não se pode esquecer de nada porque ‘’não dá’’… não tem pausas, faz xixi em tempos recordes e vai metendo pedaços de comida pela goela quando pode.

Quem dá aulas em duas casas não tem tempo para se sentar no sofá (Deus nos livre de se deitar) só ‘’um bocadinho’’… há sempre coisas para fazer, fichas para corrigir ou novas para elaborar… e quantas mais disciplinas e anos lectivos mais se pode multiplicar.

Quem dá aulas em duas casas e ainda escreve, não tem fins de semana… tem um ou outro dia no fim de semana quando tem companhia (mas nessa semana  usou as horas livres entre as 9.00 e as 21.00 para trabalhar e o poder ter) o resto do tempo, usa para escrever palermices que podem vir a ser uma renda de casa e ainda estuda com os filhos…

Quem dá aulas em duas casas, escreve, estuda com os filhos… não arruma a casa… bolas… é uma preguiçosa. Não estendeu a roupa porquê? Pela mesma razão que não foi ao cabeleireiro… Não arrumou a loiça porquê? Pelo mesmo motivo que não foi tomar café com uma amiga (e assim as vai perdendo)… não cuidou de si porquê? Porque esteve ocupada a cuidar de 31 crianças, cada uma diferente da outra…

Portanto… eu não trabalho 35 horas semanais… mas, pelo menos 60 de Domingo a Domingo! Não há cá ‘’chego do trabalho e vou fazer…’’ porque eu nunca chego! Eu estou sempre lá!

Por isso quando me dão aquele olharzinho do ‘’estás em casa e não fazes nada’’ é uma coisa ruim que se me dá cá dentro que se fosse da Marvel seria um autêntico Wolverine!

quinta-feira, 8 de março de 2018

Quando o desejo consegue ser maior do que o medo!


Sou mulher!


Sou mulher! Já posso votar (embora há 86 anos não fosse considerada cidadã é só tenha começado a ter direitos há 56 anos NOS PAÍSES DESENVOLVIDOS... porque na outra metade do mundo continuo a ser lixo).
Sou mulher! Tenho capacidades de liderança e desenvoltura superiores às de muitos homens e já consigo cargos de renome nas empresas (embora ganhe menos e a grande maioria dos postos altos de trabalho não me sejam destinados…).
Sou mulher! Posso ter filhos e até tenho licença de maternidade mas se usufruir desta na totalidade sofro represálias e posso, inclusive, ser despromovida e/ou despedida nas entrelinhas dúbias da lei.
Sou mulher! Posso usar a roupa que eu quiser mas se me assediarem ou violarem a culpa é minha porque mostrei as pernas ou um decote acentuado e então mais vale tapar-me da cabeça aos pés ou calar-me do que ser enxovalhada em praça pública depois de destruída intimamente...
Sou mulher! Trato do meu marido... ele bateu-me porque estava stressado mas a culpa não foi dele... eu não devia ter falado naquele momento.
Sou mulher! Sou uma boa mãe... tirei da minha boca para dar ao meu filho, eduquei-o quase sozinha, paguei-lhe os estudos com trabalhos extras e ainda o ajudei a comprar casa... mas o meu filho tem a sua vida, mulher e outra família... raramente o vejo, às vezes nem nas festividades pois vão para a terra dela onde o salão de jantar é maior e estão todos mais à vontade.

Sou mulher! Uma boa avó! Criei os netos com amor a dobrar e fiz deles as crianças mais amadas do universo... já não precisam de mim e já não os vejo. Mas é natural, os pais agora já os podem ter em casa sozinhos, já não sou necessária...
Sou mulher! Mas já não sou útil... envelheci. Ninguém tem tempo para mim! Todos têm a vida ocupada, os seus trabalhos, os seus amigos... ouvi dizer que me vão colocar num lar. Parece-me bem, dizem que vou estar sempre acompanhada e nunca mais me sentirei sozinha nem terei de fazer nada... talvez seja agora que vá descansar um pouco e passear.
Fui mulher... criei filhos e netos, abdiquei dos amigos, trabalhei a dobrar para ter dinheiro para os educar e garantir todas as suas necessidades e até caprichos e ninguém tem tempo, espaço nem dinheiro para o fazer por mim...  já não sou nada... apenas um saco de carne e ossos  esquecida numa cadeira qualquer à espera que a morte se compadeça de mim e me leve.

(Dedicado a todas as mulheres cujo desejo consegue ser maior do que o medo!

Ana Tapadinhas, ‘’Devaneios de uma Divorciada’’)


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Ela é Mulher!

Ela é morena ou é loira… ou tem madeixas quando lhe apetece. Tem o cabelo curto, longo, encaracolado ou esticado… Tem olhos castanhos, verdes, azuis, um sorriso rasgado e a maioria das rugas são de sorrir. Ela não é alta nem é magra mas também não é anãzinha nem uma pipa. Tem 25 anos ou 40 e às vezes até tem 60... É bonita… até quando chora. É inteligente, sonhadora, trabalhadora… tem planos para a vida e esses planos incluem envelhecer ao lado de alguém que a tenha amado no decorrer da mesma. Não desiste de ser feliz, mesmo quando parece que tudo o que faz está mal feito e todas as decisões são as erradas! Sabe, lá no fundo, que um dia acertará e continua a tentar. Ela acredita no amor, na lealdade, na família e não deixa de acreditar mesmo quando atraiçoada… fica magoada, refugia-se no seu ‘’canto’’ mas, quando termina de lamber as suas feridas, sai de novo à rua e tudo está bem! Não permite que a vejam chorar, nem que imaginem que é uma pessoa ‘’normal’’, com problemas (como todos)… para o mundo, ela tem a vida perfeita…



Ela sou eu... ela és TU!